Homem-Aranha Noir

Aos desavisados, a Marvel lançou em meados de 2009 a série Marvel Noir, que recria a história de alguns personagens do universo Marvel nos anos 30, utilizando de estética e narrativa inspiradas nos filmes noir e literaturas pulp numa atmosfera dos Estados Unidos dos anos 30, com grandes doses de violência, gangues, máfias, pobreza, depressão, ruas tomadas por famílias completas de moribundos e uma sensualidade latente que fica à cargo das femme fatales donas de boates ou coisas semelhantes. Nos EUA a série já tem 11 títulos, incluindo Arma X Noir, Deadpool Pulp, Demolidor Noir, Homem de Ferro Noir, Luke Cage Noir, Justiceiro Noir e X-Men Noir. Aqui no Brasil, até o momento, só chegaram os dois volumes de Homem-Aranha Noir e um volume dos X-Men. Ainda não tive acesso ao volume dos mutantes do Tio Xavier, assim que eu ler comentarei aqui.
Nesse primeiro post falarei um pouco sobre o primeiro volume de Homem-Aranha Noir.
Nova York, 1933. Quatro anos depois da quebra da Bolsa de Valores de Nova York. Os Estados Unidos vivem a Grande Depressão. O Duende é o chefe de uma quadrilha de criminosos que domina a cidade pela corrupção e violência. Peter Parker vive sua adolescência com os tios Ben e May, um casal de socialistas fervorosos que luta para melhorar a sociedade e impedir a exploração dos mais humildes. Amargurado com o brutal assassinato de seu tio, o jovem Peter encontra a chance de saciar sua sede de justiça ao ser picado por uma exótica aranha mística, que lhe confere poderes especiais. Agora, ele pode honrar o que seu tio lhe ensinou: “se aqueles que detêm o poder não são dignos de confiança, é dever do povo destituí-los”.
A HQ Homem Aranha Noir foi lançada nos Estados Unidos em 2009 e chegou ao Brasil em abril de 2011 pela editora Panini Comics. A história é escrita por David Hine (roteirista de outras edições do Homem Aranha, X-Men, Judge Dredd, Spawn e tantos outros) e Fabrice Sapolsky (roteirista de Torre Negra, uma adaptação para quadrinhos do romance de Stephen King), ilustrada e colorizada por Carmine di Giandomenico (de Magneto: Testamento, Reinado Sombrio n° 7, Avante, Vingadores! n° 23 e outros) e reformula e ambienta a clássica história central de Peter Park nos anos 30, numa Nova York imersa no período da Grande Depressão (Crash da Bolsa de Valores), para isso utiliza elementos conhecidos dos romances e dramas policiais do cinema e da literatura noir, termo cunhado pela primeira vez pelo francês, crítico de cinema, Nino Frank em 1946, ao descrever filmes que adotavam, em uma primeira análise, um aspecto de fotografia mais escura, semelhante ao expressionismo alemão. Por isso a expressão noir, que em francês quer dizer preto.
A capa de Homem-Aranha Noir já denuncia o clima diferente que a HQ pretende: Um Homem-Aranha pouco convencional, ainda que em sua pose clássica, empunhando um arma – que não pertence ao seu arsenal padrão -, vestindo roupas pretas, com pouca iluminação, numa visão quase silhuetada, e destacando os óculos de aviador, em contraponto aos grandes e destacados olhos negros presentes na clássica máscara vermelha do homem aracnídeo. As primeiras páginas, antes de entrar propriamente na história em quadrinhos, nos apresentam e nos introduzem à estética noir. Páginas em preto e branco e, agora sim, a visão da silhueta de um Homem-Aranha estilizado nos adentram pouco a pouco ao universo e à atmosfera de uma Nova York em pleno período de recessão econômica. Ou como diz no prefácio da edição:
Nova York, 1933. A depressão econômica começa a se agravar, a pobreza se espalha e a vida do cidadão comum nunca esteve tão à mercê dos poderosos. A justiça é um bem precioso que pode ser comprado ou vendido. Nesse cenário, Peter Parker é um jovem que luta para conter a raiva que ferve em suas entranhas. Depois do assassinato do seu tio Bem, cujo único crime foi se opor à opressão da população mais pobre, Peter se divide entre o desesperado desejo de mudar o mundo e a impossibilidade de realmente fazê-lo. É quando ocorrem dois fatos que mudarão irremediavelmente o destino de Peter e da própria cidade. Bem Urich, um repórter honesto, mas cínico e desiludido, contrata o rapaz como seu assistente, revelando a ele as tramas do submundo da corrupção que infecta Nova York. Além disso, o encontro com o Duende – o impiedoso líder de uma sinistra quadrilha de criminosos – leva Peter a ter contato com uma exótica aranha venenosa, cuja picada lhe confere estranhos poderes.
As quatro primeiras páginas se encarregam de mostrar o desenrolar de uma história que ainda não conhecemos. Os policiais, atendendo a uma chamada, adentram na sede do jornal e rumam para a sala do editor chefe do Clarim, J. J. Jameson. Ao entraram no escritório os oficiais se deparam com J. J. J. sentado na sua mesa, coberto de sangue, corpo baleado, telefone na mão e polaróides na mesa. Encima da mesa, agachado, também está o Homem-Aranha, vestindo um sobretudo, mascarado com óculos de aviador, e arma na mão. Rapidamente a policia pensa que o Cabeça de Aranha é o autor dos disparos e da agressão ao editor-chefe do Clarim. Daí por diante a história volta três semana e passa ser contada sob a ótica do repórter Ben Urich. Aqui os personagens começam a aparecer e serem apresentados ao público, aos já familiarizados com o universo do Aranha, a identificação e comparação com os seres representados no universo pop da criação de Stan Lee com os retratados na narrativa noir é quase automática.
A primeira personagem a ser facilmente identificada é May Parker que, encima de um caixote e rodeada de cidadãos moribundos atingidos pela Grande Depressão, brada ao povo palavras de revolta contra empresários, magnatas e mafiosos, e conclama o povo a lutar e resistir a esse momento de intempérie. Diferente da Tia May convencional, que não costuma se envolver em confusões, brigas e/ou discussões, a Tia May noir tem indícios de ser comunista, “defeito” bastante combatido na América dos anos 30. Ela se vê responsável por fazer com que a morte do seu marido (Bem Parker) não tenha sido em vão e luta contra a repressão e o sofrimento imposto à população por parte dos mafiosos, empresários, magnatas e até mesmo policiais corruptos que em troca de não sofrerem as seqüelas da Grande Depressão negociavam valores como justiça, cidadania, solidariedade e tudo o mais que lhes estivesse à mão.
Aqui o arquiinimigo do Aranha, Duende Verde, se coloca na pele do grande mafioso, rico e influente Norman Osborn. Em essência, talvez seja o que mais se assemelha com o seu sósia no universo contemporâneo. Outra personagem de fácil assimilação no universo noir é Felicity Hardy, ou a Gata Negra, responsável por interpretar a femme fatale da trama. Felicity é dona da boate Gata Negra, que recebe os mais variados figurões da sociedade nova-iorquina, de ganguesters à prefeitos, delegados, etc., e, assim como todos aqueles que queriam sobreviver – e viver bem – durante a Grande Depressão, Felicity burla as regras impostas pela sociedade e/ou pela lei.
Osborn está sempre rodeado por seus capangas, do qual se destaca o Abutre, responsável por devorar e matar o tio de Peter. Destaco o abutre pelo aspecto adotado no universo noir. Já foi falado que uma das fontes que a estética da cinematografia noir bebeu foi o expressionismo alemão, o próprio Fritz Lang, representante direto do expressionismo alemão, produziu filmes tachados de noir. Pois bem, o capanga Abutre é uma reprodução quase que exata da famigerada obra cinematográfica do expressionismo alemão Nosferatu (Nosferatu, Eine Symphonie des Grauens) filmado em 1922 e dirigido por F. W. Murnau.
A história do Homem-Aranha lutando por uma sociedade mais justa e por ideais de igualdade contra poderosos e mafiosos, como o Duende, se desenrola pelas cerca de 100 páginas da HQ e tem seu desfecho numa manchete do Clarim Diário em que lê-se:
Cresce o poder dos nazistas de Hitler
Berlim: Hoje, o parlamento alemão aprovou a lei que concedeu ao chanceler Hitler plenos poderes, uma condição antes reservada ao presidente da nação. Enquanto seus desordeiros nazistas aterrorizavam as ruas em busca de vítimas judias, o dr. Goebbels, sob seu novo título de Ministro da Iluminação do Povo, denunciou as “chantagens, fraudes e trapaças” dos “vampiros judeus”. Com apenas 44% dos votos populares, Hitler substituiu o processo democrático por uma onda de violência e intimidação, que inclui a prisão de seus principais opositores.
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